Autor da Análise Vital


Literatura : Trechos do Livro

Espelho de Egon - Horácio Soares

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Estava sentindo uma puta dor no estômago por causa do pré-linchamento, mas pude ouvi-la dizendo que nunca deveria ter nascido, que tudo com ela dava errado. Viera para o sul com excesso de esperança no embornal, mas só tivera decepções. Desvirginada pelo patrão, a patroa ameaçara incluí-la na promoção de um grupo de extermínio, mas acabou dando-lhe apenas uma passagem rodoviária Rio/Campina Grande. Não sabia o que dizer ao noivo, que ficara na Paraíba. Gastara um dinheirão com o uniforme e até nisso se frustrara (o Vasco acabou perdendo, o que, segundo as sagradas escrituras do campeonato carioca, jamais poderia ter acontecido diante daquele adversariozinho, pelo menos não na era “pós-garrínchica”). Pior do que tudo: achava estar grávida do coroa. Perguntou-me:
- Qual a forma da gente se matar que dói menos?
Meus pensamentos voaram para a foto da revista que ardia no meu bolso, mas Berenice, chorando baixinho - não confundir com o chorinho homônimo do Abel Ferreira - trouxe-os de volta. Por certo, estudava alternativas para pôr termo à sua existenciazinha. Caso contrário não teria mencionado que a merda do metrô não abria domingo e que não era fácil chegar sem carro ao vão central da ponte Rio-Niterói. O que me fez refletir que até para um suicídio decente dependemos da eficiência dos serviços públicos ou do poder econômico.
Disse também não querer morrer com aquela roupa íntima, pois, para ela, a calcinha do médico legal era mais importante do que a da lua-de-mel. Um minuto depois tinha adormecido e roncava masculinamente. Os ocupantes das mesas vizinhas olhavam curiosos e o garçom parecia incomodado com nossa presença. Tínhamos traçado o que restava do prato do dia de domingo da Periquita - cosido à portuguesa - e bebido um montão de caipirinhas que até perdi a conta. Pedi a conta.
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Além da beleza, impressionava-me naquela mulher, a cultura, o fato de ter viajado não sei quantas vezes para a Europa e Estados Unidos, entender de política (criticava a ditadura militar e se dizia marxista), de artes em geral e de cinema em particular, e de assumir um postura corajosa diante da vida. Mas dessa vez isso não me intimidava, pelo contrário, era um motivador a mais para a conquista, um desafio, tornar-me-ia um super-herói.
O fato mais concreto dessa minha nova atitude foi o exibicionismo exagerado durante a caçada. Realizei verdadeira chacina; devo ter liquidado uma dúzia de coelhos do mato, vários tatus, marrecos e codornas de perder a conta e, por sorte, acertei a cabeça de uma cascavel de três metros a uns trinta de distância. Festejadíssimo pelos companheiros, fui até fotografado ao lado da vítima, a cobra. Senti que ela começava a se interessar, não a cobra, claro, a filha do Cerqueira.
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Disse que posara para muitas de suas pinturas e desenhos, umas até bem conhecidas. Entretanto, em sua opinião, a obra mais significativa de que participara chamava-se “Auto-retrato desenhando uma modelo nua em frente ao espelho”, que pertence ao Museu Albertina, em Viena. Mostrou-me uma reprodução fotográfica do desenho. Aparecia nua no primeiro plano, de costas e com a mão esquerda na cintura, em pose sensual. No segundo plano, sua imagem frontal refletida no espelho e, finalmente, no último plano, também no espelho, o artista sentado, prancheta apoiada no joelho, desenhando.
Fiquei analisando o desenho, buscando semelhanças entre a fisionomia de Schiele refletida no espelho do desenho e a minha. Por um momento consegui vislumbrar as feições do meu irmão. Ela me observava calada, perscrutando meus pensamentos. Disse então:
- Egon não levou mais de quinze minutos para fazer este desenho. Enquanto ele trabalhava, para esquecer o frio que fazia no estúdio, fiquei observando sua fisionomia através do espelho e notei que era totalmente diferente da imagem real. É claro que o espelho inverte a imagem, mas a fisionomia não muda. No caso dele o reflexo mudava o caráter. O nariz, a boca, os olhos eram os mesmos, mas não representavam a mesma pessoa. O rosto era dele, a expressão não. Como os gêmeos, podem parecer iguais, mas os espíritos são diferentes; quem os conhece jamais os confundirá.
Disse ainda que naquele mesmo dia Egon quebrara o espelho:
-Estava irritado pela incompreensão das pessoas para com a sua arte e, principalmente, por não dispor de tintas e telas suficientes. Amaldiçoava um certo mecenas da época que se recusava a patrociná-lo, De súbito, num gesto irado, lançou longe um pé de chinelo que derrubou o espelho e destruiu a sua parte inferior. Ameaçou explodir, não só pelo prejuízo, mas também porque quebrar espelhos é sinal de mau agouro, mas por fim acalmou-se, prendeu a parte do espelho que ficara intacta na parede, deitou-se e dormiu.
Mais uma vez a minha idosa companheira interrompia o relato e se transportava para outra época, pelo menos é o que eu achava. Respeitei seu silêncio. Aproveitei para pensar no que dissera, mas o assunto era complicado demais para se chegar a qualquer conclusão.
Uma nuvem encobriu o sol e o frio momentâneo trouxe-a de volta. Falou:
- Meu filho, confesso que levei um susto ao vê-lo entrando na galeria. Olhava para ti mas era Egon que estava diante de mim. Até no modo de andar, a semelhança era total. Ou melhor, quase total. Havia uma estranha diferença. Tua fisionomia não era a de Egon, era a fisionomia reflexa de Egon, aquela que apareceu no espelho. Uma espécie de irmão gêmeo de Egon.
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Saí atrás de uísque. Numa dessas delicatessen de indianos abasteci meu tanque de reserva com duas garrafas pequenas, uma em cada bolso do sobretudo. Em todo pub que encontrava tomava uma dose dupla do escocês. E olha que há um pub em cada esquina. É pub pra caralho. Tava louco pra encontrar um filho da puta pra dar porrada. Falava altos palavrões que aqueles filhos das putas não entendiam porra nenhuma porque era tudo gringo “mané”.
A única merda que me lembro ter feito foi com uns punks filhos da puta, ali na não-sei-o-quê square. O viado deu o maior azar de se meter comigo, de rir na minha cara. Se não tivesse rido, até deixava ele me roubar, não tava nem aí pra porra do uísque ou das libras esterlinas. Acertei, com raiva, bem no nariz do filho da puta e o sangue jorrou feio, na hora. Seu olhar de pavor está me assustando até agora. Os outros começaram a gritar e fugiram que nem galinha caipira. Tou até com pena dele, acho que quebrou a porra do nariz.
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