Chama-se pretensão uma das pragas que andam criando ninho nos romances brasileiros dos últimos tempos. E pretensão míope. Pretende-se revolução onde há mesmice, humor onde há chatice, e originalidade onde há arremedo. Temos hoje tantos novos títulos que se querem, no mínimo, o Grande Marco da Literatura Brasileira, que o resultado é uma pasmaceira generalizada. De quebra, espanta-se o chamado grande público, que definitivamente não quer esquentar a cabeça com teses rebuscadas disfarçadas de ficção e acaba migrando para artes que exijam menos saco.
Uma das exceções a reforçar tal impressão é "O espelho de Egon", do carioca Horácio Soares. Cultuando o prazer de contar uma história pelo milenar prazer de apenas contar uma história, Soares exercita um antigo hábito de seus conterrâneos: contar mentiras com alto grau de rebuscamento. E com humor, ainda por cima. Livre do pecado da pretensão, Soares permitiu-se escrever um bom livro.
Nada disso significou baixar a bola: partindo de uma aventura banal, Soares criou uma curiosa trama que chega até Egon Schiele, um dos austríacos mais instigantes nascidos no século passado - e olha que não foram poucos.
Darcy é um sujeito com dívidas existenciais. Seu irmão gêmeo, Pery, andou aprontando todas, e desvios éticos fazem Darcy incorporar culpas e tentar desfazer as burradas do irmão - que, por sua vez, não está nem um pouco preocupado com a Humanidade. E Darcy acredita odiar Pery.
Aproveitando raros cenários do Rio (destaque para a Glória), Darcy é o pícaro carioca por excelência, daqueles que se sentem à vontade tanto em favelas como no Copacabana Palace. Não por acaso, a história começa em pleno Maracanã, durante um jogo do Botafogo. E há que se respeitar tais referências...
Malvado quando necessário, ternamente apaixonado por mulheres e bebida, Darcy é um ex-arquiteto que foge do hospício para acertar as contas com a vida. Contratado para levar US$ 1 milhão para o exterior, corre mundo fugindo de FBI, traficantes e o diabo. E é em Londres que encontra uma ex-modelo de Egon Schiele, já velhota, que o presenteia com o pedaço de um espelho do pintor expressionista austríaco, morto em 1918.
Schiele gostava de retratar a si e a mulheres nuas, ninfetas inclusive, ao lado de espelhos. Retratar duplos é uma característica presente também no romance de Soares. Darcy evita espelhos para não ter que lembrar de Pery, e o caco do espelho de Schiele vai revelar muito de seu relacionamento com o irmão - numa reflexão, aliás, comum a vários relacionamentos. O fim nos reserva surpresas, num realmente original jogo de espelhos, com ou sem trocadilhos. Mas contar o fim, aqui, não tem graça.
Uma das melhores qualidades desse romancista de primeira viagem - e xilogravurista de mão-cheia - é a falta de pudor em brincar com as palavras. Entende-se bem com elas. Mas não que não cometa pecadilhos. Eles existem, e uma revisão mais cuidadosa sapecaria vírgulas aqui e ali, reparando pequenos vacilos, que estão longe de atrapalhar as boas sacadas de Soares.
Do glamour do Copacabana Palace às entranhas da favela do Borel, passando por Vila Isabel, Lapa e São Cristóvão. Em O Espelho de Egon (Uma História Reflexiva) (Rocco, 176 págs.), os bairros e cantos do Rio são como “palcos, cenários em que são representados vários atos com personagens e gêneros distintos”. A definição, de autoria do protagonista Peryvaldo, que conta a história em narrativa subjetiva, vale também para os capítulos desse romance caleidoscópico — estréia em grande estilo do carioca Horácio Soares.
O livro começa com reflexões embaralhadas de um “bebum” com jeito de Charles Bukowski. Como imagens fora de foco que aos poucos entram em registro, as idéias de Peryvaldo clareiam e invadem um mundo mais característico de Nelson Rodrigues. Até formar o conflito existencial de um homem traído pela esposa e atormentado pela imagem do irmão gêmeo, refletida em todos os espelhos que vê.
Aos poucos, a trama ganha ares de romance policial. Isso acontece quando Pery engana a máfia do narcotráfico carioca, assume a identidade do irmão e entra em uma sucessão de frias, com direito a internamento em manicômio, fugas, perseguições, seqüestros e assassinatos. A luz no fim do túnel é a intrigante figura do pintor austríaco Egon Schiele. Apesar de intenso, o estilo de Soares é enxuto e certeiro. E, como todo bom policial, parece estar pronto para as telas. Carioca da gema.
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